Cardo-mariano, o grande aliado do fígado.
- Maria João Lopes

- há 7 horas
- 4 min de leitura

O cardo-mariano - Silybum marianum - é sem dúvida uma das minhas plantas favoritas.
Ainda me lembro de quando a estudei pela primeira vez, fiquei fascinada pela sua capacidade de promover a regeneração da célula hepática - o hepatócito.
Em muitas regiões mediterrânicas, o cardo-mariano também era chamado de "cardo-leiteiro”, dado que era utilizado como coalho do leite para o fabrico de queijo.
Outro dado curioso é que a mitologia cristã refere que foi sob as folhas largas deste cardo que a Virgem Maria escondeu Jesus durante a sua fuga. As manchas brancas que podemos ver nas folhas, eram vistas como sendo as marcas do leite que a virgem ofereceu à planta em agradecimento.
Estas folhas, uma vez retirados os espinhos, podem ser cozidas e adicionadas a sopas, dado que o cardo-mariano é uma espécie de alcachofra e, à semelhança desta, possui grande valor nutricional.
Os seus frutos (“sementes”) são usados como tónico hepático, uma vez que a silimarina que contêm estimula a renovação das células hepáticas.
A silimarina, é considerada o principal princípio ativo do cardo-mariano, e consiste num complexo de flavonolignanos - não sendo assim uma única molécula mas uma mistura de compostos.
Mas antes de continuar com os benefícios desta maravilhosa planta, queria dizer algo que considero muito importante: o nosso fígado tem capacidade natural de regeneração, as plantas medicinais apenas facilitam e promovem esse processo.
A maioria das plantas, cria condições ideias para regeneração do fígado, dado que:
◦ reduzem a inflamação
◦ reduzem a gordura hepática
◦ diminuem o stress oxidativo
◦ melhoram a circulação e o metabolismo do fígado.
A Agência Europeia do Medicamento (EMA) aprova o seu uso tradicional para o alívio da dispepsia (sensação de enfartamento, indigestão) e dos distúrbios digestivos de origem biliar.
Propriedades da silimarina:
Ajuda a proteger as células do fígado contra toxinas.
Ajuda na regeneração das células hepáticas.
É frequentemente usada em casos de: fígado gordo, danos hepáticos por álcool, elevada exposição a toxinas ou toma excessiva de medicação.
Actua como antioxidante , ajudando a reduzir o stress oxidativo e a proteger as células do seu envelhecimento e da inflamação.
Alguns estudos sugerem que pode ajudar no controlo glicémico em pessoas com diabetes tipo 2 (como complemento para baixar a glicose, não substitui tratamento convencional).
Menopausa
Um estudo randomizado, controlado com placebo, mostra que a administração de 400 mg/dia de um extrato do fruto de cardo-mariano (80% de silimarina) reduz significativamente a frequência e a intensidade dos afrontamentos em mulheres menopáusicas.
Oncologia
O cardo-mariano atua como um modulador de vias de sinalização oncogénicas ao proteger contra danos ao ADN, induzir a morte de células tumorais (apoptose), ao interromper a sua proliferação, suprimir a inflamação, e a angiogénese (formação de novos vasos sanguíneos, o que permite o crescimento de tumores). Reduz ainda os efeitos indesejáveis de medicamentos anticancerígenos, como o paclitaxel, a cisplatina, o metotrexato ou o fluorouracilo.
A silimarina interfere em múltiplas vias celulares envolvidas na carcinogénese:
MAPK/ERK: reduz sinalização de sobrevivência e proliferação.
PI3K/Akt/mTOR: diminui a resistência à apoptose (mecanismo de morte programada da célula)
STAT3: redução da transcrição de genes pró-survival (de sobrevivência celular).
Pode também inibir a metástase, afetando moléculas como MMPs (metaloproteinases da matriz) que degradam o tecido extracelular.
No entanto mais estudos são necessários para comprovar este efeito em humanos.

A ter em conta:
A silimarina presente no cardo-mariano não se dissolve bem em água, assim, ao preparar a planta em infusão, a concentração do princípio activo é muito baixa, tornando-a pouco ou nada eficaz para fins terapêuticos. Ou seja, como placebo, a infusão funciona bem. 😁
Melhores formas de consumo:
extractos padronizados (cápsulas)
tinturas (gotas, xarope ou ampolas)
As dosagens irão depender do efeito que pretendemos, e da pessoa em questão (peso, idade, condição de saúde e medicação que está a fazer no momento).
Também podemos ingerir as suas sementes trituradas (1–2 colheres de chá de sementes trituradas/dia) no entanto apenas para um efeito digestivo e antioxidante leve, dado que a biodisponibilidade é baixa, assim como a concentração de silimarina. Em média, as sementes têm cerca de 1,5–3% de silimarina, quando o que procuramos em doses terapêuticas ronda os 80% de silimarina.
Precauções
Pode interferir com certos medicamentos como é o caso de: anticoagulantes, alguns antidepressivos, medicamentos para colesterol e medicamentos para diabetes.
Pessoas alérgicas a plantas da família Asteraceae (como margaridas ou ambrósia) podem ter reação.
Efeitos secundários possíveis
Normalmente é bem tolerado, mas pode causar: desconforto gastrointestinal, diarreia leve, náuseas e dor abdominal.
Normalmente ao reajustar a dosagem os efeitos secundários passam.
FONTES:
MacDonald-Ramos, Karla et al. “Silymarin Reduced Insulin Resistance in Non-Diabetic Women with Obesity.” International journal of molecular sciences vol. 25,4 2050. 8 Feb. 2024, doi:10.3390/ijms25042050
Jurčacková, Zuzana et al. “Flavonolignans silybin, silychristin and 2,3-dehydrosilybin showed differential cytoprotective, antioxidant and anti-apoptotic effects on splenocytes from Balb/c mice.” Scientific reports vol. 15,1 5631. 15 Feb. 2025, doi:10.1038/s41598-025-89824-1
Koltai, Tomas, and Larry Fliegel. “Role of Silymarin in Cancer Treatment: Facts, Hypotheses, and Questions.” Journal of evidence-based integrative medicine vol. 27 (2022): 2515690X211068826. doi:10.1177/2515690X211068826
Ashraf, Mohammad Arif. “Phytochemicals as Potential Anticancer Drugs: Time to Ponder Nature's Bounty.” BioMed research international vol. 2020 8602879. 31 Jan. 2020, doi:10.1155/2020/8602879
Barzkar, Farzaneh et al. “Medicinal plants in the adjunctive treatment of patients with type-1 diabetes: a systematic review of randomized clinical trials.” Journal of diabetes and metabolic disorders vol. 19,2 1917-1929. 22 Sep. 2020, doi:10.1007/s40200-020-00633-x
Fallah, Maryam et al. “Silymarin (milk thistle extract) as a therapeutic agent in gastrointestinal cancer.” Biomedicine & pharmacotherapy = Biomedecine & pharmacotherapie vol. 142 (2021): 112024. doi:10.1016/j.biopha.2021.112024
Srinivasan, Srithika et al. “Exploring the anti-cancer and antimetastatic effect of Silymarin against lung cancer.” Toxicology reports vol. 13 101746. 28 Sep. 2024, doi:10.1016/j.toxrep.2024.101746
A. Proença da Cunha, Alda Pereira da Silva, Odete Rodrigues Roque. -Plantas e produtos vegetais em fitoterapia - 4ª ed. rev. e actualiz. - Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2012. - ISBN 978-972-31-1435-5




Comentários